hoje as horas possuem uma aspereza maior que as de costume. um vazio franco e ensurdecedor acorda a memória para as coisas que que naufragaram entre as marés que não obedeciam os ciclos da lua. meus velhos vícios surgiram como uma tábua de salvação e, os quero de volta.os mistérios escondidos nas frestas se tornam ainda mais indecifráveis. um caminho cheio de maltratos e esquecimentos se apresenta como uma corda que espera o condenado, talvez apenas falte o suspiro, talvez apenas falte a dose ínfima e poderosa que arraste, de vez, o esquecimento para o esquecimento.
(penso em Deus e na condição falha de ser feliz).
as pessoas seguem caminhando. alguém passa em silêncio e fico a meditar na pequenez das pessoas que apenas caminham, na pequenez humana e nada compreensível. se existisse algo mais, se o tempo fosse um pouco mais sensível...
eu não consigo viver. é um peso a vida. o poeta tinha razão quando dizia que morrer é fácil.
nao quero nada hoje, talvez amanhã. tenho certeza que amanhã a realidade a de me bater a porta. essa realidade que não é minha, essa realidade que, seguindo por caminhos tortos eu construí. eu não a quero.
o que de teu é teu? apenas o sonho...
a mecânica de existir precisa de magia.
o pão quente de manhã, a toalha felpuda e cheirosa, o café fresco... que magia há nisso?
as orações, a psicologia, a terapia, qual o sentido? salvação, respostas? há uma certa estupidez e fraqueza, ignorância e medo nisso tudo.
para aqueles não sabedores de que destino seguir, alheio a própria condição de sentidores e de pensantes do que lhe pulsa em cada artéria... dá-lhes trabalho. trabalho é uma válvula para cansar o corpo e torná-lo surdo aos questionamentos da alma, é o mais perfeito adestramento.
por certo não tenho nada com o capitalismo, por certo não tenho nada com as doutrinas ou as tendências das grifes e cozinhas. construo o meu universo longe das conjecturas. apenas nas sensações daquilo que realmente me importa. há alguns caminhos cegos. deixem para que os cegos sigam. o mundo é uma grande massa de cegos... talvez seja eu o mais cego, mas ainda vislumbro, algo maior que a rotina pasmacenta. ainda gozo do meu entender mesmo profano, enquanto outros seguem instintivamente, como raposas e coelhos, a construirem ninhos a caçar alimentos para dormirem o descanso.
busco o sonho e a magia que há dentro de mim.
o meu desejo, é sim, desavergonhado e passeador.
com olhos, ouvidos e olfato escuto a noite que abre passadas largas. alguém segue apressado, levando pela mão um menino bem vestido e sorridente. não me vê e eu o vejo, sorrio e não tenho respostas.
o céu está limpo, as estrelas parecem colaborarem para mais um noite. visto-me de nudez e provocação... tenho toda a calçada e todo os desejos dos homens. meu corpo, inda juventude, sabe de fingimentos, sobrevive a tantos gozos sem gozar, conserva-se alheio para a chance de se descobrir um dia.
eu ouço todo o ruído como uma sinfonia orquestrada, acordes sentidos que se fazem palpável ao corpo.
que tenho eu com as coisas todas que, ora seguem alinhavadas, ora desalinhavadas? .jpg)