Carta I - (da solidão e seus devaneios)

hoje as horas possuem uma aspereza maior que as de costume. um vazio franco e ensurdecedor acorda a memória para as coisas que que naufragaram entre as marés que não obedeciam os ciclos da lua. meus velhos vícios surgiram como uma tábua de salvação e, os quero de volta.

os mistérios escondidos nas frestas se tornam ainda mais indecifráveis. um caminho cheio de maltratos e esquecimentos se apresenta como uma corda que espera o condenado, talvez apenas falte o suspiro, talvez apenas falte a dose ínfima e poderosa que arraste, de vez, o esquecimento para o esquecimento.
(penso em Deus e na condição falha de ser feliz).

as pessoas seguem caminhando. alguém passa em silêncio e fico a meditar na pequenez das pessoas que apenas caminham, na pequenez humana e nada compreensível. se existisse algo mais, se o tempo fosse um pouco mais sensível...
eu não consigo viver. é um peso a vida. o poeta tinha razão quando dizia que morrer é fácil.

nao quero nada hoje, talvez amanhã. tenho certeza que amanhã a realidade a de me bater a porta. essa realidade que não é minha, essa realidade que, seguindo por caminhos tortos eu construí. eu não a quero.

o que de teu é teu? apenas o sonho...

a mecânica de existir precisa de magia.
o pão quente de manhã, a toalha felpuda e cheirosa, o café fresco... que magia há nisso?
as orações, a psicologia, a terapia, qual o sentido? salvação, respostas? há uma certa estupidez e fraqueza, ignorância e medo nisso tudo.

para aqueles não sabedores de que destino seguir, alheio a própria condição de sentidores e de pensantes do que lhe pulsa em cada artéria... dá-lhes trabalho. trabalho é uma válvula para cansar o corpo e torná-lo surdo aos questionamentos da alma, é o mais perfeito adestramento.

por certo não tenho nada com o capitalismo, por certo não tenho nada com as doutrinas ou as tendências das grifes e cozinhas. construo o meu universo longe das conjecturas. apenas nas sensações daquilo que realmente me importa. há alguns caminhos cegos. deixem para que os cegos sigam. o mundo é uma grande massa de cegos... talvez seja eu o mais cego, mas ainda vislumbro, algo maior que a rotina pasmacenta. ainda gozo do meu entender mesmo profano, enquanto outros seguem instintivamente, como raposas e coelhos, a construirem ninhos a caçar alimentos para dormirem o descanso.

busco o sonho e a magia que há dentro de mim.


Carta II - (dos meus desejos)

o meu desejo, é sim, desavergonhado e passeador.
dentro dos limites percebidos e do silêncio exigido causa furdunço e experimenta sensações. mais atrevido do que deveria e mais visível do que se percebe.

que dirias tu do desejos que tens? quais são os territórios sondados por tua ânsia e o teu querer? não me atrevo e não me atenho a constatações freudianas, pois, tudo é tão simples e tão natural quanto o meu e o teu riso.

quanta humildade do corpo a responder instantaneamente e abrir as guardas para aquilo que é proibido. lúbrico? sim e sempre, no tumulto disciplinado, na consciência do desejo mútuo.
que desaforo é para o corpo desejar em brados ou em brados ser desejado, mediocridade, insensatez e descontrole. ao desejo cabe todas as coisas, menos o constrangimento e a vulgaridade que fere o ser desejado.

mulher, tu que depõe sempre as tuas armas e mostra tua alegria, que liberta minha voz e acende o meu riso, compreendendo e se fazendo compreendida, és naturalmente, por mim desejada, nas tuas perfeições e imperfeições.

aquele que deseja, deve querer tudo, amar e respeitar o que se tem, mesmo que tenha só naquele instante, mas é um instante infinito.


Carta III - (da aspereza do não ser percebido)

com olhos, ouvidos e olfato escuto a noite que abre passadas largas. alguém segue apressado, levando pela mão um menino bem vestido e sorridente. não me vê e eu o vejo, sorrio e não tenho respostas.

tudo em mim tem vincos de quem muito já viveu. creio que apenas o meu olhar e o meu sorriso condizem com o tempo do dia em que nasci até hoje. o homem apressado a levar o menino tropeçou sobre minhas coisas e não me viu. pergunto-me: qual a diferença do meu espírito criança para qualquer outra criança?

o carro abre a porta e os dois partem, por certo, terão um jantar a pratos limpos, uma cama macia com lençóis perfumados, talvez uma história para dormir e um mundo de fadas e duendes na imaginação. eu fico aqui com esse pouco sorriso a remexer os latões, esperando a benevolência das sobras para dormir saciado. minha cama se resume a alguns papelões recolhidos rapidamente de uma lixeira antes que caminhão passasse.

estou debaixo de um poste e, por absurdo que possa achar, também tenho medo do escuro
e não há ninguém a levar-me pela mão.

ignorante, nascido de uma ignorante que nunca soube porque me pariu e, por consequência, nunca soube eu o porquê nasci ou, de quem é a culpa por eu estar aqui, vou sobrevivendo a minha maneira, enquanto proteges a tua bolsa e o teu bolso. és a minha única chance. se protegesse o teu coração quem sabe, não teríamos, os dois, preocupação com nada.

quando iremos nos encontrar de novo, homem apressado que leva o menino pelas mãos? talvez nunca, talvez amanhã. talvez num cruzamento qualquer e, eu com alguma arma em punho, terei teus olhos assustados, desta vez, a me olhar. adianto-te, não queria te ver em nenhuma circunstância que não fosse de contentamento.

alguém me disse um dia que Deus passeia no rosto dos pequeninos. acredito que no meu rosto ele deve estar escondido, deve estar invisível pois, tu que dizes ser homem de fé não me enxerga. não te recrimino, não quero nada de ti que não seja para o meu sustento e, se não me dás, se não lutas por mim ou, sequer dirige-me o olhar, diga-me:
qual a minha chance?


Carta IV - (da mulher que ignora o corpo)

o céu está limpo, as estrelas parecem colaborarem para mais um noite. visto-me de nudez e provocação... tenho toda a calçada e todo os desejos dos homens. meu corpo, inda juventude, sabe de fingimentos, sobrevive a tantos gozos sem gozar, conserva-se alheio para a chance de se descobrir um dia.

a brisa eriça a minha pele morena, essa morenice antepassada, sobrevivente de tantos preconceitos. os meus seios ainda não estão maduros, mas foram inúmeras vezes provados. salientes no bustiê bege e com decote desinibido, atiça o transeunte feito de fantasia. as curvas, o quadril, as pernas alongadas, inda mais pelo salto, são convites expostos para todos... para os meninos que não sabem da artimanha do sexo, para os homens infiéis, para os senhores cansados de suas esposas tagarelas e recatadas, para as mulheres que desejam o carinho de outra mulher.

resume-se ao corpo todo o desejo. meu nome pode ser qualquer um, o nome que desejares eu tenho, a mulher que desejares eu sou, a posição que quiseres eu aceito e o que pedir eu faço, mas não se engane, não confunda, não me tens, não tens o brilho de meus olhos, nem o meu pulsar, nem os meus sonhos. tens a tua fantasia e a minha necessidade, nada mais. se desejas que eu seja tua, agora, serei, mas apenas enquanto o teu dinheiro puder te permitir meu dono.

a minha carne é igual a tua, também sei de sentimentos, de alegrias e tristezas, defino as coisas que parecem ser, das coisas que realmente são. em cada abuso teu um frio na alma. sinto-me coisa tão inútil quanto a ti, vazo vazio, porcelana medíocre que não se tem o cuidado do tato, carne rasgada e, murada feita para ser transposta. permito-te a ilusão mas não te dou a minha que é muito mais simples, sem necessidades de paisagens de primaveras, de cenas de filmes com finais felizes.

queria apenas não existir no teu caminho, não existir no teu reparar e que fosse eu a descobrir a ti.


Carta V - (do que foi no tempo construído)

“é intermitente o desejo da morte”

há muitas décadas passadas eu não tinha artifícios,tampouco conhecimento para prever como seria o tempo depois do tempo passado. o coração é sempre menino, sempre esta a soltar pipas e a correr nos quintais e, por isso, acho injusto esse dorso arqueado, essas mãos tremulas, essas rugas que teimosamente me fizeram esquecer, ainda jovem, da face da mocidade.

lá fora redemoinhos e pouca expectativa. não sou nada aos olhos do outro, a sabedoria minha se resumirá a um monte de terra que, talvez, será visitada uma vez a cada ano.

se todos esses dias que passaram caminhei rumo ao desconhecido, hoje, me deparo com o definitivo. não tenho medo e sei que um dia todos estarão a me fazer companhia no definitivo. espero porém que tenham vivido ao seu gosto, sem perder tempo com mesquinharias. que tenham amado o reflexo no espelho para poder amarem a sua volta.
a construção perfeita é aquela que edifica o espírito. ser o artesão dos próprios detalhes e, no tempo que houver, consumi-los, antes que te definhes sem saber o porquê. nunca se perder com ou, na decifração da natureza, antes, vive-la, cantá-la e misturar-se. vive-a, cante-a...misture-se.

os mistérios não possuem significados, se possuíssem não seriam mistérios. encare os dias chuvosos como dias chuvosos e não sinta saudade do cais quando partires. o cais e um monumento erguido a espera do regresso e, viver é estar envolto em ondas que não sabem quando irão se encher de fúria. é preciso saborear a imprevisibilidade com consciência, ser sabedor que nem todas as partidas possuem itinerários.

se não quiser, não se dane, mas se quiser, dane-se junto com aquilo tudo que levas, para que sempre estejas enovelado numa mesma constelação. estrelas solitárias são lindas, mas intocáveis e, é preciso viver para o toque dos ventos, da luz, de todos os elementos e das mãos.

viver até o ultimo momento, foi o que sempre quis, então, espero sem forças e cabisbaixo. não soube eu edificar minha construção.


Carta VI - (do sentimentalista e do sensível)

eu ouço todo o ruído como uma sinfonia orquestrada, acordes sentidos que se fazem palpável ao corpo.

que relação deve haver entre o sentimentalismo e a sensibilidade? queria poder ser um sentimentalista e ter todos os sentimentos listados e assim, e quando não me aprouverem, ignorá-los.

os sentimentalistas possuem amores tantos e deixam de amar quando surge um outro amor, como se amores pudessem ser esquecidos. podem se transformar em outros sentimentos, bom ou ruim, podem despertar a vontade de nunca ter amado, mas, com que olhos se diz ao ser que já foi amado que não o conhece mais, que o é esquecimento? a sensibilidade é um fardo...

somos sensíveis a eles. amados, por toda a vida lembrados, como poderia ser o contrario? se dói em mim o cansaço daquele que caminha e a aflição daquele que chora, como poderei esquecer o que em mim foi construído e retribuído pelo toque dos meus sentidos.

a cada amor uma alma a partir e o silêncio de não querer nada em troca a não ser o respeito do que foi edificado por amor. respeito ao imaterial que envolveu, não as mãos, não ao corpo ou a presença, mas o respeito pelo que nos faz sensível.
ao sensível tudo tem um pouco de dor e muita intensidade. não há vazios, sempre exageros e propensão ao entendimento, esse mais que permite compreender a frivolidade e a banalidade das coisas.

não se trata nada com sentimentalismos. é sempre preciso a veracidade do crispar dos olhos e das mãos.


Carta VII - (do não perceber o movimento)

que tenho eu com as coisas todas que, ora seguem alinhavadas, ora desalinhavadas?
com esse eterno conspirar do movimento?

onde está o sossego, a languidez e a candura dos momentos de não pensar em nada e deixar tudo correr e discorrer ao bel prazer daquilo que segue?
essa caminhada involuntária rumo ao destino desconhecido ignora as paisagens que ficam à janela. ignora as minúcias e o deleite do observar as pequenas contrariedades e a insistência das coisas que não querem se atrever a estas viagens.

se tivesse eu, forças para remar rio acima e conhecer os atalhos entre as corredeiras, na busca da origem, do princípio dessas avalanches misturadas a pedras e galhos, talvez aceitaria sem contradições, tudo que nos empurra para destinos nunca sabidos.

movimento, rotação, translação, uma estrela morre, outra nasce e nascem constelações inteiras sem que eu tenha conhecido a órbita daquelas que foram para mim, um dia, guias e fascínio, metáforas e explicações.
revisito coisas que passei e não vi, revisito o desconhecido. floresço três estações depois, não tardio e nem antes da hora, mas sempre com a sensação de estar fora, terrivelmente fora do tempo. desconfortável no exercício de sentir e me expor.

eu me pergunto a olhar para a vida: por onde andei? estou a ver coisas desfocadas que deveriam estar nítidas! acredito ser uma suposição de antes, cheia de falhas. em minha frente desfilam imagens que parecem ter sido vividas e nunca sentidas.

eu queria a vida bem devagar, sem ater-me ao dia que faço anos e, em tudo perceber. mesmo estando envolto em coisa nenhuma. saber das paredes da casa e de todas as minhas cicatrizes.